terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Soneto da hora final

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.


Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.


Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: - Sê forte.


E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


— Vinicius de Moraes

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