sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Transcedentalismo

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.


Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...


Não é no vasto Mundo - por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade -
Que a alma sacia o seu desejo intenso...


Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!


— Antero de Quental

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Soneto da hora final

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.


Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.


Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: - Sê forte.


E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


— Vinicius de Moraes

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cantem outros a clara cor virente

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.


Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.


Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...


Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...


Alphonsus de Guimaraens

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Financial Times/Notícias UOL, 10/01/2009

Suicídio de bilionário por causa da crise
é a história de nossos tempos

Richard Milne e James Wilson
Tradução de George El Khouri Andolfato

Segundo a revista "Forbes", ele figurava entre as 100 pessoas mais ricas do mundo. Mas pouco se ouvia falar de Adolf Merckle, 74 anos e que nesta semana se tornou a baixa pessoal mais notável do arrocho do crédito, fora de seu país natal, a Alemanha, até dois meses atrás -quando uma aposta fracassada nas ações da Volkswagen levou, no final, ao seu suicídio na noite de segunda-feira.

A história de sua queda é uma história dos nossos tempos. Ela envolve um empreendedor que no ano passado valia cerca de US$ 9,2 bilhões, após construir um império de 120 empresas ao longo de quatro décadas. Os negócios somados produziam € 38 bilhões em receitas anuais, mas eram apoiados por transações entrelaçadas de crédito. Merckle era uma pessoa que corria riscos.

Mas ao assumir um risco a mais e pisar fora do mundo confortável do capitalismo alemão e ingressar nos derivativos de alta octanagem por meio de apostas na Volkswagen e no índice Dax 30 de Frankfurt, ele viu a obra de sua vida ruir. Assim, em uma noite amargamente fria -logo após assinar um empréstimo que provavelmente levará ao desmanche de seu império- Merckle fez uma curta caminhada de sua casa até a espera pelo próximo trem e sua morte.

O choque sentido em Blaubeuren, a pequena cidade no sul da Alemanha onde ele vivia, foi imenso. "A cidade inteira ficou perturbada. Parece incompreensível e trágico que um cidadão respeitado, animado e poderoso tenha visto a morte como um último recurso", disse Jörg Seibold, prefeito de Blaubeuren.

Merckle parecia o estereótipo do empreendedor alemão. Ele era sigiloso e construiu uma das maiores empresas da Europa sem cortejar a publicidade. Ele vivia segundo o que Otto Sälzle, o chefe da câmara regional de comércio e membro do Rotary Club juntamente com Merckle, chama de "ética e modo de vida protestantes". Ele ia trabalhar de bicicleta e desfrutava de poucos dos luxos da riqueza.

Mas sua carreira mostrou um lado implacável não visto com freqüência nos negócios alemães. Muitos parceiros comerciais, presidentes-executivos, acionistas minoritários e líderes sindicais foram postos de lado enquanto Merckle construía seu império.

Posteriormente, até mesmo um dos três filhos de Merckle, Philipp, teve que renunciar como presidente-executivo da Ratiopharm. Ele tentou impor novos padrões éticos após um escândalo de propinas médicas, mas negligenciou os negócios operacionais. "Foi uma decisão difícil de tomar e que o afetou fisicamente", disse Sälzle sobre Adolf Merckle. "Mas ele o fez no interesse da empresa."

Merckle usou sua formação como advogado para criar uma estrutura opaca para seu império, explorando as leis tributárias e mudando os domicílios de suas empresas.

Suas principais empresas eram baseadas na herança de sua família. Ele pegou o que restou da minúscula empresa farmacêutica de seu avô e, aos 30 anos, a transformou na segunda maior atacadista de medicamentos da Europa, a Phoenix. Uma viagem aos Estados Unidos nos anos 70 lhe mostrou o potencial dos medicamentos genéricos e a Ratiopharm, o laboratório farmacêutico que ele fundou, agora é a líder do setor na Alemanha.

Finalmente, Merckle usou as posições de sua mãe e sua esposa nas dinastias do cimento para transformar uma participação acionária de 1% na HeidelbergCement em 80% há apenas três anos.

As sementes de sua queda, entretanto, também foram plantadas durante sua ascensão. Primeiro havia a estrutura complicada de suas empresas, onde sua participação acionária em uma servia como garantia para a compra de outra. "Ele era ávido em usar alavancagem e dívida -tanto na holding quanto nas empresas individuais", disse um consultor da família. "Não havia nenhum problema nisso enquanto havia liquidez."

Ele usou sua participação acionária na HeidelbergCement como garantia de um empréstimo que financiou sua tomada por 8 bilhões de libras (€ 9 bilhões) da britânica Hanson, há dois anos.

Ele também gostava de apostar nos mercados, dizendo certa vez: "Eu às vezes sou um day trader". Sua paixão começou cedo, quando ainda na escola ele investiu em títulos da empresa de energia local.

Seu hobby cresceu a partir daí até que, fora o que ele aplicava de volta em suas empresas, ele investiu em ações que incluíram -de modo fatalista- às da Porsche, que o impressionou por sua não disposição de apresentar relatórios trimestrais. Em 2003, suas aplicações geravam lucros de € 274 milhões por ano.

Quando ocorreu o arrocho do crédito, Merckle começou a ter problemas de liquidez. "Ele podia ser rico em ativos, mas era pobre em fluxo de caixa", disse o consultor da família. Com a queda dos preços das ações, também caiu a garantia que ele forneceu aos bancos -e eles começaram a pedir mais. Mas com grande parte de seu império interligado, Merckle se viu amarrado. Em sua única entrevista nos últimos meses, ele disse ao "Frankfurter Allgemeine Zeitung" que tinha sobrevivido a muitos crashes no mercado de ações, mas "nunca enfrentei uma crise bancária desta magnitude".

Então Merckle tentou aquele que pode ter sido seu último lançamento de dados. Ele adquiriu derivativos que apostavam na queda das ações da Volkswagen e do índice Dax. A VEM, a empresa de investimento da família que é co-dirigida por seu filho Ludwig, estava na prática apostando contra a empresa que ele admirava: a Porsche. A fabricante de automóveis era de propriedade de cerca de um terço da Volkswagen, mas tinha insinuado que possuía mais em opções de ações que não precisava revelar.

Assim, quando foi revelado em novembro que ela controlava perto de três quartos da Volkswagen, ocorreu um pânico no mercado e as ações da Volkswagen quintuplicaram de valor. Aqueles, como Merckle, que apostaram na queda dos preços, sofreram grandes perdas. A VEM as estimou em poucas centenas de milhões de euros por sua exposição à Volkswagen, mas banqueiros estimaram a soma em muitas centenas de milhões.

Merckle -descrito por um banqueiro como "sempre um duro negociador"- acabou recebendo uma dose de seu próprio remédio nas negociações com mais de 30 credores. "Ter um banqueiro de 30 anos lhe dizendo o que fazer, quando se está acostumado a dizer para 100 mil pessoas o que elas têm que fazer, foi um grande choque", disse um consultor da família.

A pressão estava crescendo. Merckle se queixou ao "FAZ" de que a mídia o retratava como um "apostador". Isso por sua vez soou mal na Swabia, a parte conservadora da Alemanha onde ele vivia. Um executivo da Porsche, uma empresa também da Swabia, disse: "Nós simplesmente não entendemos o que ele fez -o risco que estava assumindo era enorme".

Um dos consultores da família apontou para a responsabilidade que empreendedores como Merckle freqüentemente sentem em relação aos seus trabalhadores. "Ele era parte integral da sociedade local e deve ter sentido que tinha fracassado com estas pessoas."

Uma mulher em uma padaria de Blaubeuren disse: "As pessoas o veneravam aqui. Mas quando os problemas começaram, muitas começaram a pensar: 'Ele não tem dinheiro suficiente?' Antes, ele era um gigante diante dos banqueiros. E então ele teve que se apresentar diante deles como um menininho".

No início desta semana, uma solução estava próxima para os problemas das empresas de Merckle. Um acerto de um empréstimo pelos bancos estava próximo, mas a Ratiopharm e provavelmente a Phoenix teriam que ser vendidas, e Ludwig não poderia permanecer no comando da VEM. Isso causou revolta entre algumas pessoas em Blaubeuren.

Josef Walter, de uma loja de calçados e material esportivo, está enojado dos banqueiros que não deram apoio a Merckle. Ele disse: "Eu aposto que daqui cinco anos, quem quer que compre (a Ratiopharm) demitirá as pessoas e o Estado terá que pagar o seguro desemprego, quando poderia ter ajudado a manter as pessoas empregadas".

A própria família de Merckle disse que "sua impotência para agir", somada à situação ruim de suas empresas, "quebrou" o empreendedor.

Sälzle disse: "Isso significa que ele perdeu toda sua influência. Deve ter sido uma experiência desastrosa para ele e uma que poderia explicar sua decisão de se suicidar. A segunda-feira foi o dia em que ele teve que entregar tudo."

domingo, 28 de junho de 2009

Livros

Desabrigo e outras narrativas – Antônio Fraga, Ed José Olímpio
Mar de contos – Juan Carlos Onetti
Nove Contos – Saliger, J.D.

sábado, 27 de junho de 2009

Ilustrada, Folha de São Paulo, 27/06/2009

TMZ representa o mundo em transição
RONALDO LEMOS (COLUNISTA DA FOLHA)

Em paralelo às notícias da morte do Rei do Pop, outra notícia que ganhou destaque em menor escala foi a de que as TVs, os rádios e os jornais do mundo foram "furados" pelo site TMZ, especializado em fofocas de celebridades.
Enquanto a mídia tradicional lutava contra o tempo para confirmar a morte do astro, o TMZ já proclamava que ele havia sofrido uma parada cardíaca. E, pouco tempo depois, destemidamente afirmava que Jackson havia morrido.
Essa notícia paralela chama a atenção por pelo menos dois pontos. O primeiro é o mais óbvio. A internet, em toda a sua diversidade e complexidade, estabelece um canal direto muito mais rápido para a produção de notícias. Cada vez mais, ela terá impacto mais direto na esfera pública.
A criação de "notícias", antes privilégio da mídia tradicional, tornou-se e irá se tornar cada vez mais descentralizada, valendo-se de Twitter, Facebook, YouTube, blogs, celulares e o que vier depois. Esse fato, em si, chama para a reinvenção da mídia tradicional. É preciso se reinventar para não se tornar caixa de ressonância do que todo mundo já ficou sabendo antes. Já vi teses de doutorado e editores de jornal dizendo que a situação atual é a inversa. Que a internet é a caixa de ressonância da mídia tradicional. Há um quinhão de verdade nisso. Mas a tendência, como o caso Michael Jackson denota, é que a situação se inverta.
O segundo ponto é verificar que o TMZ, que vem sendo apontado como herói das "novas mídias", na verdade é ligado à Time-Warner. Nada mais mídia tradicional do que isso. No entanto, vale notar que seu formato é muito mais próximo de um blog/tablóide do que de um jornal tradicional.
É como se o navio Time-Warner tivesse lançado uma lancha de alta velocidade no oceano das notícias. Essa "lancha" não tem as amarras do jornalismo tradicional, pode se mover a uma velocidade muito maior e, sobretudo, não tem de obedecer aos protocolos de segurança do grande navio.
Em outras palavras, as regras de cautela, apuração e confiabilidade não são as mesmas para o site. Ele pode correr riscos. E, por conta disso, por ser um produto híbrido entre nova e velha mídia, talvez tenha sido destemido ao afirmar com tanta segurança a morte de Michael Jackson.
A morte de Michael Jackson e a forma como foi noticiada simbolizam um mundo em transição. Ninguém sabe ainda para onde irá o jornalismo e como será formada a esfera pública nos próximos anos. E os desafios são enormes. Como reinventar não só as formas de participação, mas também uma ética nova para a rede, uma ética que não seja nem ingênua nem obsoleta? E que não seja imposta, mas sim construída.
O fato é que não existe marcha a ré nesse processo, para desespero dos saudosistas e das viúvas do velho mundo. Vamos ter de aprender a reinventar tudo a 1.000 quilômetros por hora. É hora de experimentação. É hora de renovação de paradigmas. E de lembrar que o mundo em que foi possível existir alguém como Jackson não existe mais.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Eclesiastes 1,9

Se passo a mão de leve sobre a fronte,
se afago as lombadas desses livros,
se o Livro das Noites reconheço,
se giro a terceira fechadura,
se me demoro no umbral incerto,
se uma dor incrível me atordoa,
se recordo a Máquina do Tempo,
se recordo o tapete do unicórnio,
se mudo a posição enquanto durmo,
se a memória me devolve um verso,
repito o ritual inumeráveis
vezes em meu assinalado rumo.
Não posso executar um ato novo,
teço e torno a tecer a mesma fábula,
repito um repetido decassílabo,
torno a dizer o que outros me disseram,
as mesmas coisas sinto, sempre à mesma
hora do dia ou da abstrata noite.
Noite após noite o mesmo pesadelo,
noite após noite o austero labirinto.
Sou o cansaço de um espelho imóvel,
ou o pó de um museu.
Somente algo indesejável espero,
só espero esse dom, ouro da sombra,
essa virgem, a morte.

Borges, Jorge Luis, Obras Completas III – Editora Globo