quinta-feira, 9 de julho de 2009

Financial Times/Notícias UOL, 10/01/2009

Suicídio de bilionário por causa da crise
é a história de nossos tempos

Richard Milne e James Wilson
Tradução de George El Khouri Andolfato

Segundo a revista "Forbes", ele figurava entre as 100 pessoas mais ricas do mundo. Mas pouco se ouvia falar de Adolf Merckle, 74 anos e que nesta semana se tornou a baixa pessoal mais notável do arrocho do crédito, fora de seu país natal, a Alemanha, até dois meses atrás -quando uma aposta fracassada nas ações da Volkswagen levou, no final, ao seu suicídio na noite de segunda-feira.

A história de sua queda é uma história dos nossos tempos. Ela envolve um empreendedor que no ano passado valia cerca de US$ 9,2 bilhões, após construir um império de 120 empresas ao longo de quatro décadas. Os negócios somados produziam € 38 bilhões em receitas anuais, mas eram apoiados por transações entrelaçadas de crédito. Merckle era uma pessoa que corria riscos.

Mas ao assumir um risco a mais e pisar fora do mundo confortável do capitalismo alemão e ingressar nos derivativos de alta octanagem por meio de apostas na Volkswagen e no índice Dax 30 de Frankfurt, ele viu a obra de sua vida ruir. Assim, em uma noite amargamente fria -logo após assinar um empréstimo que provavelmente levará ao desmanche de seu império- Merckle fez uma curta caminhada de sua casa até a espera pelo próximo trem e sua morte.

O choque sentido em Blaubeuren, a pequena cidade no sul da Alemanha onde ele vivia, foi imenso. "A cidade inteira ficou perturbada. Parece incompreensível e trágico que um cidadão respeitado, animado e poderoso tenha visto a morte como um último recurso", disse Jörg Seibold, prefeito de Blaubeuren.

Merckle parecia o estereótipo do empreendedor alemão. Ele era sigiloso e construiu uma das maiores empresas da Europa sem cortejar a publicidade. Ele vivia segundo o que Otto Sälzle, o chefe da câmara regional de comércio e membro do Rotary Club juntamente com Merckle, chama de "ética e modo de vida protestantes". Ele ia trabalhar de bicicleta e desfrutava de poucos dos luxos da riqueza.

Mas sua carreira mostrou um lado implacável não visto com freqüência nos negócios alemães. Muitos parceiros comerciais, presidentes-executivos, acionistas minoritários e líderes sindicais foram postos de lado enquanto Merckle construía seu império.

Posteriormente, até mesmo um dos três filhos de Merckle, Philipp, teve que renunciar como presidente-executivo da Ratiopharm. Ele tentou impor novos padrões éticos após um escândalo de propinas médicas, mas negligenciou os negócios operacionais. "Foi uma decisão difícil de tomar e que o afetou fisicamente", disse Sälzle sobre Adolf Merckle. "Mas ele o fez no interesse da empresa."

Merckle usou sua formação como advogado para criar uma estrutura opaca para seu império, explorando as leis tributárias e mudando os domicílios de suas empresas.

Suas principais empresas eram baseadas na herança de sua família. Ele pegou o que restou da minúscula empresa farmacêutica de seu avô e, aos 30 anos, a transformou na segunda maior atacadista de medicamentos da Europa, a Phoenix. Uma viagem aos Estados Unidos nos anos 70 lhe mostrou o potencial dos medicamentos genéricos e a Ratiopharm, o laboratório farmacêutico que ele fundou, agora é a líder do setor na Alemanha.

Finalmente, Merckle usou as posições de sua mãe e sua esposa nas dinastias do cimento para transformar uma participação acionária de 1% na HeidelbergCement em 80% há apenas três anos.

As sementes de sua queda, entretanto, também foram plantadas durante sua ascensão. Primeiro havia a estrutura complicada de suas empresas, onde sua participação acionária em uma servia como garantia para a compra de outra. "Ele era ávido em usar alavancagem e dívida -tanto na holding quanto nas empresas individuais", disse um consultor da família. "Não havia nenhum problema nisso enquanto havia liquidez."

Ele usou sua participação acionária na HeidelbergCement como garantia de um empréstimo que financiou sua tomada por 8 bilhões de libras (€ 9 bilhões) da britânica Hanson, há dois anos.

Ele também gostava de apostar nos mercados, dizendo certa vez: "Eu às vezes sou um day trader". Sua paixão começou cedo, quando ainda na escola ele investiu em títulos da empresa de energia local.

Seu hobby cresceu a partir daí até que, fora o que ele aplicava de volta em suas empresas, ele investiu em ações que incluíram -de modo fatalista- às da Porsche, que o impressionou por sua não disposição de apresentar relatórios trimestrais. Em 2003, suas aplicações geravam lucros de € 274 milhões por ano.

Quando ocorreu o arrocho do crédito, Merckle começou a ter problemas de liquidez. "Ele podia ser rico em ativos, mas era pobre em fluxo de caixa", disse o consultor da família. Com a queda dos preços das ações, também caiu a garantia que ele forneceu aos bancos -e eles começaram a pedir mais. Mas com grande parte de seu império interligado, Merckle se viu amarrado. Em sua única entrevista nos últimos meses, ele disse ao "Frankfurter Allgemeine Zeitung" que tinha sobrevivido a muitos crashes no mercado de ações, mas "nunca enfrentei uma crise bancária desta magnitude".

Então Merckle tentou aquele que pode ter sido seu último lançamento de dados. Ele adquiriu derivativos que apostavam na queda das ações da Volkswagen e do índice Dax. A VEM, a empresa de investimento da família que é co-dirigida por seu filho Ludwig, estava na prática apostando contra a empresa que ele admirava: a Porsche. A fabricante de automóveis era de propriedade de cerca de um terço da Volkswagen, mas tinha insinuado que possuía mais em opções de ações que não precisava revelar.

Assim, quando foi revelado em novembro que ela controlava perto de três quartos da Volkswagen, ocorreu um pânico no mercado e as ações da Volkswagen quintuplicaram de valor. Aqueles, como Merckle, que apostaram na queda dos preços, sofreram grandes perdas. A VEM as estimou em poucas centenas de milhões de euros por sua exposição à Volkswagen, mas banqueiros estimaram a soma em muitas centenas de milhões.

Merckle -descrito por um banqueiro como "sempre um duro negociador"- acabou recebendo uma dose de seu próprio remédio nas negociações com mais de 30 credores. "Ter um banqueiro de 30 anos lhe dizendo o que fazer, quando se está acostumado a dizer para 100 mil pessoas o que elas têm que fazer, foi um grande choque", disse um consultor da família.

A pressão estava crescendo. Merckle se queixou ao "FAZ" de que a mídia o retratava como um "apostador". Isso por sua vez soou mal na Swabia, a parte conservadora da Alemanha onde ele vivia. Um executivo da Porsche, uma empresa também da Swabia, disse: "Nós simplesmente não entendemos o que ele fez -o risco que estava assumindo era enorme".

Um dos consultores da família apontou para a responsabilidade que empreendedores como Merckle freqüentemente sentem em relação aos seus trabalhadores. "Ele era parte integral da sociedade local e deve ter sentido que tinha fracassado com estas pessoas."

Uma mulher em uma padaria de Blaubeuren disse: "As pessoas o veneravam aqui. Mas quando os problemas começaram, muitas começaram a pensar: 'Ele não tem dinheiro suficiente?' Antes, ele era um gigante diante dos banqueiros. E então ele teve que se apresentar diante deles como um menininho".

No início desta semana, uma solução estava próxima para os problemas das empresas de Merckle. Um acerto de um empréstimo pelos bancos estava próximo, mas a Ratiopharm e provavelmente a Phoenix teriam que ser vendidas, e Ludwig não poderia permanecer no comando da VEM. Isso causou revolta entre algumas pessoas em Blaubeuren.

Josef Walter, de uma loja de calçados e material esportivo, está enojado dos banqueiros que não deram apoio a Merckle. Ele disse: "Eu aposto que daqui cinco anos, quem quer que compre (a Ratiopharm) demitirá as pessoas e o Estado terá que pagar o seguro desemprego, quando poderia ter ajudado a manter as pessoas empregadas".

A própria família de Merckle disse que "sua impotência para agir", somada à situação ruim de suas empresas, "quebrou" o empreendedor.

Sälzle disse: "Isso significa que ele perdeu toda sua influência. Deve ter sido uma experiência desastrosa para ele e uma que poderia explicar sua decisão de se suicidar. A segunda-feira foi o dia em que ele teve que entregar tudo."

domingo, 28 de junho de 2009

Livros

Desabrigo e outras narrativas – Antônio Fraga, Ed José Olímpio
Mar de contos – Juan Carlos Onetti
Nove Contos – Saliger, J.D.

sábado, 27 de junho de 2009

Ilustrada, Folha de São Paulo, 27/06/2009

TMZ representa o mundo em transição
RONALDO LEMOS (COLUNISTA DA FOLHA)

Em paralelo às notícias da morte do Rei do Pop, outra notícia que ganhou destaque em menor escala foi a de que as TVs, os rádios e os jornais do mundo foram "furados" pelo site TMZ, especializado em fofocas de celebridades.
Enquanto a mídia tradicional lutava contra o tempo para confirmar a morte do astro, o TMZ já proclamava que ele havia sofrido uma parada cardíaca. E, pouco tempo depois, destemidamente afirmava que Jackson havia morrido.
Essa notícia paralela chama a atenção por pelo menos dois pontos. O primeiro é o mais óbvio. A internet, em toda a sua diversidade e complexidade, estabelece um canal direto muito mais rápido para a produção de notícias. Cada vez mais, ela terá impacto mais direto na esfera pública.
A criação de "notícias", antes privilégio da mídia tradicional, tornou-se e irá se tornar cada vez mais descentralizada, valendo-se de Twitter, Facebook, YouTube, blogs, celulares e o que vier depois. Esse fato, em si, chama para a reinvenção da mídia tradicional. É preciso se reinventar para não se tornar caixa de ressonância do que todo mundo já ficou sabendo antes. Já vi teses de doutorado e editores de jornal dizendo que a situação atual é a inversa. Que a internet é a caixa de ressonância da mídia tradicional. Há um quinhão de verdade nisso. Mas a tendência, como o caso Michael Jackson denota, é que a situação se inverta.
O segundo ponto é verificar que o TMZ, que vem sendo apontado como herói das "novas mídias", na verdade é ligado à Time-Warner. Nada mais mídia tradicional do que isso. No entanto, vale notar que seu formato é muito mais próximo de um blog/tablóide do que de um jornal tradicional.
É como se o navio Time-Warner tivesse lançado uma lancha de alta velocidade no oceano das notícias. Essa "lancha" não tem as amarras do jornalismo tradicional, pode se mover a uma velocidade muito maior e, sobretudo, não tem de obedecer aos protocolos de segurança do grande navio.
Em outras palavras, as regras de cautela, apuração e confiabilidade não são as mesmas para o site. Ele pode correr riscos. E, por conta disso, por ser um produto híbrido entre nova e velha mídia, talvez tenha sido destemido ao afirmar com tanta segurança a morte de Michael Jackson.
A morte de Michael Jackson e a forma como foi noticiada simbolizam um mundo em transição. Ninguém sabe ainda para onde irá o jornalismo e como será formada a esfera pública nos próximos anos. E os desafios são enormes. Como reinventar não só as formas de participação, mas também uma ética nova para a rede, uma ética que não seja nem ingênua nem obsoleta? E que não seja imposta, mas sim construída.
O fato é que não existe marcha a ré nesse processo, para desespero dos saudosistas e das viúvas do velho mundo. Vamos ter de aprender a reinventar tudo a 1.000 quilômetros por hora. É hora de experimentação. É hora de renovação de paradigmas. E de lembrar que o mundo em que foi possível existir alguém como Jackson não existe mais.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Eclesiastes 1,9

Se passo a mão de leve sobre a fronte,
se afago as lombadas desses livros,
se o Livro das Noites reconheço,
se giro a terceira fechadura,
se me demoro no umbral incerto,
se uma dor incrível me atordoa,
se recordo a Máquina do Tempo,
se recordo o tapete do unicórnio,
se mudo a posição enquanto durmo,
se a memória me devolve um verso,
repito o ritual inumeráveis
vezes em meu assinalado rumo.
Não posso executar um ato novo,
teço e torno a tecer a mesma fábula,
repito um repetido decassílabo,
torno a dizer o que outros me disseram,
as mesmas coisas sinto, sempre à mesma
hora do dia ou da abstrata noite.
Noite após noite o mesmo pesadelo,
noite após noite o austero labirinto.
Sou o cansaço de um espelho imóvel,
ou o pó de um museu.
Somente algo indesejável espero,
só espero esse dom, ouro da sombra,
essa virgem, a morte.

Borges, Jorge Luis, Obras Completas III – Editora Globo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Estado de São Paulo, 18/02/2009

Ciborgues e o mundo que vem por aí
GILBERTO DUPAS

A vida humana é finita. No entanto, a aceitação da morte está sumindo lentamente do nosso horizonte simbólico, cultural e social por conta das conquistas sucessivas da ciência biomédica. Prolongar a vida a qualquer preço tornou-se o objetivo maior. A socióloga Celine Lafontaine lembra que sempre clamamos pela imortalidade. Panteões, academias, memoriais, nomes de ruas e viadutos pelo mundo afora atestam nosso desejo de eternidade.

Agora a onda das biociências reativou a fantasia da eterna juventude. O biologista Aubrey de Grey garante que "a pessoa que viverá eternamente já nasceu". Clonagem, alterações genéticas, criogenia e prolongamento artificial da vida são práticas correntes. A proliferação cultural do mito do ciborgue e do pós-humano marca nossos próximos passos.

A extensão das fronteiras decorre dos avanços biomédicos. O agonizante mantido vivo em UTIs, entubado, atado a fios, tubos e aparelhos cada vez mais invasivos, é visto pelo antropólogo Chris Hables Gray como o tipo ideal de ciborgue. A decifração dos códigos e programações genéticas promete o acesso ao segredo da vida. Para a socióloga Dorothy Nelkin, a sacralização da ideia de que os genes são imortais se reflete no fetichismo do DNA, que se supõe conter a essência da individualidade subjetiva.

Relíquia do mundo pós-moderno, cada fragmento de DNA abrigaria, na retórica do genoma, a essência informacional de uma pessoa e sua identidade genética. O nascimento de Dolly marcou nossa entrada definitiva na era da pós-mortalidade. As células-tronco são uma mina de ouro para o desenvolvimento da medicina regenerativa dos tecidos. A ideia de reagrupar estratégias e intervenções terapêuticas visando reparar tecidos danificados do corpo humano restringiria a morte a acidentes extraordinários ou destruição extrema das forças vitais. Do transplante de órgãos às terapias genéticas, passando pela fabricação de tecidos de substituição, a indústria biofarmacêutica e a medicina regenerativa assumem o biocontrole de uma sociedade que se quer pós-mortal. Seus passos são estimular mecanismos de autorreparação; implantar tecidos ou órgãos produzidos fora do corpo; rejuvenescer células que afetam o relógio biológico; e, por meio da nanotecnologia, reconstruir corpo e cérebro em escala molecular com adição de inteligência artificial. Esse modelo quer libertar o humano da "prisão biológica da mortalidade" por meio da sua fusão com a máquina.

Ray Kurzweil sustenta que o organismo humano é obsoleto. A ideia é fazer o download do conteúdo da inteligência humana em uma máquina a fim de obter sua existência pós-biológica. O sociólogo William Sims Bainbridge e o prêmio Nobel de Física Norbert Wiener afirmaram que será possível brevemente gravar o conteúdo de um ser humano em um CD e transportá-lo nos bolsos, o que eles aplaudem como a libertação do corpo, visto como suporte frágil e falível. O paciente em estado de morte cerebral é o protótipo do ciborgue. E as nanotecnologias são consideradas a solução miraculosa para a fragilidade humana e da morte, fazendo a hibridação entre o natural e o artificial.

Para Eric Gullichsen o cérebro é a alma neurológica, o DNA faz a alma molecular e as nanotecnologias criarão a alma atômica. Em suma, trata-se de física quântica, microeletrônica, informática, biologia molecular com a engenharia molecular e cibernética manipulando matéria reorganizada em nível atômico e fazendo a fusão entre as espécies viventes e as máquinas. Para o cientista Robert A. Freitas, "a nanomedicina pode aprender a inverter completamente as falhas celulares e fazer os idosos recuperarem boa parte da saúde e da juventude, da força e da beleza, desfrutando de uma extensão quase indefinida de sua vida". Em Becoming Immortal, Stanley Shostak propõe modificar geneticamente o corpo humano a fim de parar seu crescimento biológico antes do período de puberdade. Os indivíduos assim transformados poderiam viver indefinidamente. Tornados estéreis pelo bloqueio artificial de seu desenvolvimento, eles não seriam nem homens nem mulheres, mas seres assexuados e fisicamente imaturos, ainda que intelectualmente adultos.

O modelo desenvolvido por Shostak é largamente inspirado pela figura teórica do ciborgue tal como a elaborou Donna Haraway. Meio natural e meio artificial, meio homem e meio mulher, o ciborgue é um ser emancipado da prisão da diferença sexual, da opressão de gêneros e da procriação. Dissociada da sexualidade, a procriação seria feita tecnicamente em útero artificial. Pobres de nós!

Evocando a hipótese de uma superpopulação causada pelo aumento da longevidade, os cientistas defensores dessas ideias propõem limite radical aos nascimentos.

Num brado exacerbado de hedonismo e individualismo, afirmam que entre escolher viver eternamente ou nos reproduzir, a grande maioria de nós optaria pela imortalidade. Querer ultrapassar as fronteiras da morte é, para Christopher Lasch, nosso fantasma narcísico como capazes de lidar com os limites da condição humana.

O biocapital, figura maiúscula da economia globalizada, com essas linhas de pesquisa deixa entrever uma nova forma de dominação e de desigualdade. Enquanto anuncia o alongamento sem fim da expectativa de vida das gerações mais velhas a custos exorbitantes, cerceando o espaço essencial da alternância de gerações, reduz a saúde dos jovens estimulando o consumismo que provoca obesidade, diabetes, cânceres e outras doenças sistêmicas geradas pelas contaminações e pela inatividade física.

Quem gostaria de viver nessa sociedade que os arautos do futuro anunciam?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Folha de São Paulo, 08/02/2009

Livro cria dimensão literária ao mito tupi
FRANCISCO BOSCO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Seja dito de saída o essencial: "Meu Destino É Ser Onça", novo livro de Alberto Mussa, é uma grande contribuição aos estudos das culturas indígenas do Brasil, logo, à cultura brasileira e, finalmente, ao patrimônio cultural da humanidade.Sim, pois o propósito deste livro é nada menos que estabelecer um possível texto mítico original, isto é, "restaurar" a narrativa mitológica tupi em um único texto totalizador, a partir da leitura cruzada das diversas fontes nas quais essa narrativa se encontra espalhada e fragmentada.

O autor relata que tal ideia lhe ocorreu depois de ter lido excertos da "Cosmografia Universal" -obra do frade André Thevet, que conviveu com os tupinambás no Brasil em meados do século 16-, "a fonte primária mais extensa de que se dispõe para o conhecimento da mitologia dos nossos antepassados". Mussa vislumbrou aí a possibilidade de "incorporar a epopeia tupinambá a nossa cultura literária".

Para tanto, não bastaria apenas traduzir a obra de Thevet.Seria preciso "devolver à narrativa sua literariedade". Essa estaria no "sentido profundo", no "assunto fundamental" dos fragmentos míticos, que teriam escapado a Thevet e às demais fontes. O autor insiste na dimensão literária de seu desígnio. Alega que, "porque quis fazer literatura", produziu um texto novo, em português, "que corresponde a um possível original tupi, no nível estritamente teórico do seu encadeamento lógico". Aqui é possível sugerir um ajuste de foco.

Adequação
Não é que falte "literariedade" ao texto estabelecido por Mussa. Mas é preciso compreender a adequação dessa palavra a este caso.

O texto mítico "restaurado" não apresenta -nem deveria, dado seu objetivo- uma escrita com procedimentos particularizadores. As características de seu texto são aquelas do gênero mítico: estão lá a parataxe (as sucessivas frases justapostas sem elementos de ligação), o pretérito imperfeito aspectual (a dar a sensação de um tempo contínuo, originário), o pretérito perfeito que se lhe segue (marcando os acontecimentos instauradores), a conjunção "e" no começo de frases que elencam as coisas criadas, a concisão, as imagens etc.

Ou seja, o trabalho extraordinário deste livro não é propriamente literário (ainda que seu resultado o seja), no sentido da realização de uma escrita singular -mas intelectual. O decisivo no estabelecimento da narrativa mitológica é a leitura cruzada que Mussa faz das diversas fontes, operando múltiplos critérios simultaneamente a fim de decidir sobre informações falsas ou verdadeiras, características de personagens, encadeamentos de episódios etc., por meio dos quais torna-se-lhe possível postular o sentido do mito e o recompor.

Literariedade
Dadas algumas voltas no parafuso, reencontramos aqui a questão da literariedade. Deleuze dizia que a composição é um elemento fundamental do estilo. Ora, o estilo, neste livro, situa-se essencialmente aí, em sua estrutura, no jogo de interpretação recíproca que se tece entre suas partes.

O presente livro é uma verdadeira tese, no sentido rigoroso da palavra. Tese que, partindo de um conjunto de hipóteses interpretativas, deságua num original possível -e resplandecente: o mito do mito.

FRANCISCO BOSCO, ensaísta e letrista, é autor de "Folha Explica Dorival Caymmi" (Publifolha)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Negro Adeus

Adeus! já nada tenho que dizer-te.
Minhas horas finais trêmulas correm.
Dá-me o último riso, p'ra que eu possa
Morrer cantando, como as aves morrem.


Ai daquele que fez do amor seu mundo!
Nem deuses nem demônios o socorrem.
Dá-me o último olhar, para que eu possa
Morrer sorrindo, como os anjos morrem.


Foste a serpente, e eu, vil, ainda te adoro!
Que vertigens meu cérebro percorrem!
Mente a última vez, para que eu possa
Morrer sonhando, como os doidos morrem.

— Vitoriano Palhares

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Livros

  • Contos de Amor de Loucura e de Morte – Horacio Quiroga
  • Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga – Wilson Alves-Bezerra, Ed Humanitas, 2008
  • O Estrangeiro – Albert Camus
  • As Palavras – Sartre
  • Contos Novos – Mário de Andrade
  • Claro Enigma – Drummond
  • A Montanha Mágica – Thomas Mann
  • Vista do Rio – Rodrigo Lacerda
  • O Amanuense Belmiro – Cyro dos Anjos
  • Meu Destino É Ser Onça – Alberto Mussa, Record, 2008

Jean-Marie Gustave Le Clézio

  • À Procura do Ouro – Brasiliense/1985 (esgotado)
  • O Deserto – Brasiliense/1986 (esgotado)
  • Diego e Frida – Scritta/1994 (esgotado)
  • A Quarentena – Cia das Letras/1997
  • O Peixe Dourado – Cia das Letras/2001
  • O Africano – Cozac Naif/2007

Antôno Lobo Antunes

  • Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo – Objetiva/2004
  • Conhecimento do Inferno – Objetiva/2006
  • Memória de Elefante – Objetiva/2006
  • Os Cus de Judas – Objetiva/2007
  • Eu Hei-de Amar uma Pedra – Objetiva/2007
  • Ontem não te vi em Babilônia – Objetiva/2008


Lista de livros FUVEST 2009

  • Auto da Barca do Inferno – Gil Vicente
  • Memórias de um Sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida
  • Iracema – José de Alencar
  • Dom Casmurro – Machado de Assis
  • O Cortiço – Aluísio Azevedo
  • A Cidade e as Serras – Eça de Queirós
  • Vidas Secas – Graciliano Ramos
  • Capitães de Areia – Jorge Amado
  • Antologia Poética (2ª versão aumentada) – Vinícius de Moraes

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Lobo Antunes na Flip 2009

Antôno Lobo Antunes é considerado, por críticos de todo o mundo, como o mais importante romancista português depois de Eça.
No Brasil foram lançados:


  • Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo
    Objetiva/2004
  • Conhecimento do Inferno
    Objetiva/2006
  • Memória de Elefante
    Objetiva/2006
  • Os Cus de Judas
    Objetiva/2007
  • Eu Hei-de Amar uma Pedra
    Objetiva/2007
  • Ontem não te vi em Babilônia
    Objetiva/2008

Segundo o Caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo de 22.1.09, a Editora Objetiva lançará, em junho de 2009, o romance Meu Nome É Legião.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Folha de São Paulo – Caderno Mais! – 18/01/09

As tramas de Poe

Tem um Poe para o gosto de cada tipo de leitor moderno: tem o policial de certos contos, o racionalista dos comentários, o filosófico amalucado de "Eureka", o frio e calculista da "Filosofia da Composição", o psicanalítico de outros contos, até o sensacionalista das polêmicas, além do herói romântico de vida errática e intensa. A 200 anos de seu nascimento, essas facetas estão cada vez mais nítidas, numa obra nunca totalmente traduzida para o português, que soma milhares de páginas repletas de interesse, por qualquer desses lados. Não custa aumentar a lista com mais este: morreu com apenas 40 anos, e em circunstâncias ainda hoje não esclarecidas.

Morrer aos 40 quer dizer o seguinte: se Machado de Assis houvesse morrido nessa idade, não teria escrito nada a partir das "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e do primeiro volume de seus contos excelentes, "Papéis Avulsos", e isso inclui nada menos que todos os seus maiores romances e contos; se Jorge Luis Borges tivesse morrido aos 40, não teria publicado nem mesmo "Ficciones" e "El Aleph", quer dizer, nada do que produziu de maduro e fez sua fama mundial.

Edgar Allan Poe nasceu em Boston, Massachusetts, em 1809, e faleceu em Baltimore, Maryland, em 1849. Perdeu pai e mãe, ambos atores itinerantes, aos dois anos de idade; foi criado por um comerciante rico (de quem incorporou o sobrenome Allan), com quem teria relações conflituosas na juventude. Viveu a meninice na Inglaterra, entre 1815 e 1820, estudando na antiga metrópole de seu jovem país.

Destacou-se nos estudos, mas não cursou senão um ano na universidade, de volta aos EUA. Foi soldado e chegou a entrar na academia de West Point; mas seu temperamento e seu comportamento (endividou-se com jogo, bebia muito) o impediram de seguir carreira militar. Viveu sua vida adulta com grandes dificuldades econômicas (seu pai adotivo não lhe legou nada), sempre trabalhando em jornais e revistas; e tinha desde cedo a convicção, várias vezes expressa, de ser um gênio.

Lembrar Machado e Borges como termos de comparação não tem nada de gratuito. O incomparável escritor brasileiro (1839-1908) cita Poe desde 1866; cita-o poucas vezes, mas o suficiente para expor sua proximidade com aspectos centrais da criação de Poe, além de sua tradução de "O Corvo", poema-símbolo do escritor norte-americano.

Borges (1899-1986), então, nem se fala: cita-o inúmeras vezes, escreve analiticamente sobre ele, identifica-o como um ponto de apoio para suas concepções de arte. Em certo momento, dirá que foi Poe quem inventou o leitor moderno, o leitor desconfiado a quem é preciso ao mesmo tempo convencer (atingindo a famosa "suspension of disbelief", que Poe aprendeu com seu mestre-mor, o poeta e ensaísta S.T. Coleridge) e manter tenso, manipulando as frágeis linhas da palavra escrita.

Não foi Poe o único inventor desse novo leitor, claro; certamente teve o grande auxílio de outro gênio, agora francês, não por acaso seu leitor fiel, Charles Baudelaire, tradutor de Poe para a grande língua de cultura letrada do século 19 ainda nos anos 1850, e responsável, por isso, pela enorme divulgação de sua obra Ocidente afora. Foi Baudelaire que formulou o problema, com carinho e rispidez simultâneas, no sintético verso que resume a filosofia moderna do tema: "Leitor hipócrita, meu semelhante, meu irmão".

Poe não foi tão longe no juízo sobre o novo leitor, mas abriu o caminho. Sua já mencionada "Filosofia da Composição" (1846) anuncia a tese-síntese da literatura que quer capturar o leitor -escrever tendo em vista um efeito previamente deliberado, o que exclui o espontaneísmo e a intuição-, aquele leitor que já não vive nos palácios e sim na rua, que não é o aristocrata vivendo da renda da terra e, portanto, ocioso, mas sim o burguês correndo atrás da grana, com tempo curto. Pelo mesmo caminho, Poe defendeu o conto contra o romance, como um sinal dos tempos, não como decadência, sendo nisso um pragmático; mas não levava livre o mau gosto da burguesia de seu tempo, tendo-a mesmo atacado num texto de grande originalidade, a "Filosofia do Mobiliário".

Tudo isso aparece pela primeira vez claramente em sua obra, mas ele segue os passos de certa família de ensaístas que já se preocupava com estes temas -o papel do leitor, a irrelevância da literatura que não fala diretamente ao leitor, assim como a importância do autoexame público por parte de quem escreve, o que inclui a revelação de bastidores da concepção. Quem antes dele? A linhagem recua pelo menos a Montaigne, citado em interessante passagem de sua "Marginália", coletânea de palpites, reflexões rápidas, confissões, crítica social e filosofia, e certamente passa pelos ensaístas ingleses do século 18. Gente do tipo que simultaneamente sabe de sua condição crítica superior -"Para apreciar completamente uma obra de gênio é mister possuir toda a superioridade que serviu para produzi-la", anota Poe- e sabe das imensas dificuldades de levar a cabo uma obra exigente.

Entre fato e ficção
Talvez por isso, e dadas as condições objetivas de sua vida, Poe inventou outra modalidade de autodivulgação: a mistificação. Por intuição ou por cálculo, ele se promovia como se soubesse que o artista moderno é sua obra e ele mesmo, neste mundo-celebridade. Certa vez, mentiu (por escrito) sobre suas experiências, dizendo, numa autoapresentação para uma antologia de poesia, que muito jovem havia se dirigido à Grécia, para lutar pela independência daquele berço do Ocidente (como Byron), mas no caminho acabara desviando para a Rússia, onde teria vivido intensas experiências. Tudo mentira -mas dava charme.

Essa estratégia de ultrapassagem entre fato e ficção rendeu bem, em termos artísticos: em várias passagens de sua obra contística vamos encontrar alegações de realidade (manuscrito encontrado pelo autor, por exemplo), assim como na obra ensaística haverá momentos de pura ficção (como na carta reproduzida no ensaio "Eureka", datada de 2848!). Como tantos depois, Poe borrou os limites entre gêneros, padrões literários, estatutos ontológicos.

Que ele seja mais famoso pelo lado gótico, enigmático e histriônico não estranha, porque isso também existe em sua obra; como Baudelaire, ele também foi revelado ao leitor brasileiro mais pelos aspectos gritantes e menos pela vigorosa dimensão crítica. Mas aí estão grandes leitores, como Freud e Lacan, a mostrar que aquele interesse artístico de Poe nos mecanismos do sonho e da fantasia prenunciava o caminho futuro da arte, caminho não por acaso balizado, não custa lembrar, pela lógica profunda do capitalismo, que seu país se preparava para liderar. Mas Poe não é profeta trivial; como outros românticos destemperados e tocados pelo senso da originalidade -me ocorrem dois exemplos desiguais mas não aleatórios, Glauber Rocha e Qorpo-Santo-, sua obra diz mais do que ele intentou, e por isso continua viva.

LUÍS AUGUSTO FISCHER, professor de literatura na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), é autor de "Machado e Borges" (ed. Arquipélago), entre outros.

Prêmio Nobel de Literatura 2008

Jean-Marie Gustave Le Clézio, romancista francês.

Obras no Brasil:
• O Africano (2007) – Cozac Naif
• O Peixe Dourado (2001) – Cia das Letras
• A Quarentena (1997) – Cia das Letras
• Diego e Frida (1994) – Scritta (esgotado)
• O Deserto (1986) – Brasiliense (esgotado)
• À Procura do Ouro (1985) – Brasiliense (esgotado)

Folha Online – 25/12/08

Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter (da France Presse, em Londres)


O Prêmio Nobel de Literatura, o britânico Harold Pinter, morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24).

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, "em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão", afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

"Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20", acrescentou a Academia.

Em 1957 estreou como dramaturgo com "The Room". Uma de suas primeiras obras "The Birthday Party" ('A festa de aniversário', 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: 'pinteresque'.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.
Escreveu também novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão 'The Tailor of Panama' ('O alfaite do Panamá', 2001),' The Handmaid's Tale' (1990), 'Accident' (1967), 'The French Lieutenant's Woman' ('A mulher do tenente francês',1981) ou 'Breaking the Code' (1996).