quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Estado de São Paulo, 18/02/2009

Ciborgues e o mundo que vem por aí
GILBERTO DUPAS

A vida humana é finita. No entanto, a aceitação da morte está sumindo lentamente do nosso horizonte simbólico, cultural e social por conta das conquistas sucessivas da ciência biomédica. Prolongar a vida a qualquer preço tornou-se o objetivo maior. A socióloga Celine Lafontaine lembra que sempre clamamos pela imortalidade. Panteões, academias, memoriais, nomes de ruas e viadutos pelo mundo afora atestam nosso desejo de eternidade.

Agora a onda das biociências reativou a fantasia da eterna juventude. O biologista Aubrey de Grey garante que "a pessoa que viverá eternamente já nasceu". Clonagem, alterações genéticas, criogenia e prolongamento artificial da vida são práticas correntes. A proliferação cultural do mito do ciborgue e do pós-humano marca nossos próximos passos.

A extensão das fronteiras decorre dos avanços biomédicos. O agonizante mantido vivo em UTIs, entubado, atado a fios, tubos e aparelhos cada vez mais invasivos, é visto pelo antropólogo Chris Hables Gray como o tipo ideal de ciborgue. A decifração dos códigos e programações genéticas promete o acesso ao segredo da vida. Para a socióloga Dorothy Nelkin, a sacralização da ideia de que os genes são imortais se reflete no fetichismo do DNA, que se supõe conter a essência da individualidade subjetiva.

Relíquia do mundo pós-moderno, cada fragmento de DNA abrigaria, na retórica do genoma, a essência informacional de uma pessoa e sua identidade genética. O nascimento de Dolly marcou nossa entrada definitiva na era da pós-mortalidade. As células-tronco são uma mina de ouro para o desenvolvimento da medicina regenerativa dos tecidos. A ideia de reagrupar estratégias e intervenções terapêuticas visando reparar tecidos danificados do corpo humano restringiria a morte a acidentes extraordinários ou destruição extrema das forças vitais. Do transplante de órgãos às terapias genéticas, passando pela fabricação de tecidos de substituição, a indústria biofarmacêutica e a medicina regenerativa assumem o biocontrole de uma sociedade que se quer pós-mortal. Seus passos são estimular mecanismos de autorreparação; implantar tecidos ou órgãos produzidos fora do corpo; rejuvenescer células que afetam o relógio biológico; e, por meio da nanotecnologia, reconstruir corpo e cérebro em escala molecular com adição de inteligência artificial. Esse modelo quer libertar o humano da "prisão biológica da mortalidade" por meio da sua fusão com a máquina.

Ray Kurzweil sustenta que o organismo humano é obsoleto. A ideia é fazer o download do conteúdo da inteligência humana em uma máquina a fim de obter sua existência pós-biológica. O sociólogo William Sims Bainbridge e o prêmio Nobel de Física Norbert Wiener afirmaram que será possível brevemente gravar o conteúdo de um ser humano em um CD e transportá-lo nos bolsos, o que eles aplaudem como a libertação do corpo, visto como suporte frágil e falível. O paciente em estado de morte cerebral é o protótipo do ciborgue. E as nanotecnologias são consideradas a solução miraculosa para a fragilidade humana e da morte, fazendo a hibridação entre o natural e o artificial.

Para Eric Gullichsen o cérebro é a alma neurológica, o DNA faz a alma molecular e as nanotecnologias criarão a alma atômica. Em suma, trata-se de física quântica, microeletrônica, informática, biologia molecular com a engenharia molecular e cibernética manipulando matéria reorganizada em nível atômico e fazendo a fusão entre as espécies viventes e as máquinas. Para o cientista Robert A. Freitas, "a nanomedicina pode aprender a inverter completamente as falhas celulares e fazer os idosos recuperarem boa parte da saúde e da juventude, da força e da beleza, desfrutando de uma extensão quase indefinida de sua vida". Em Becoming Immortal, Stanley Shostak propõe modificar geneticamente o corpo humano a fim de parar seu crescimento biológico antes do período de puberdade. Os indivíduos assim transformados poderiam viver indefinidamente. Tornados estéreis pelo bloqueio artificial de seu desenvolvimento, eles não seriam nem homens nem mulheres, mas seres assexuados e fisicamente imaturos, ainda que intelectualmente adultos.

O modelo desenvolvido por Shostak é largamente inspirado pela figura teórica do ciborgue tal como a elaborou Donna Haraway. Meio natural e meio artificial, meio homem e meio mulher, o ciborgue é um ser emancipado da prisão da diferença sexual, da opressão de gêneros e da procriação. Dissociada da sexualidade, a procriação seria feita tecnicamente em útero artificial. Pobres de nós!

Evocando a hipótese de uma superpopulação causada pelo aumento da longevidade, os cientistas defensores dessas ideias propõem limite radical aos nascimentos.

Num brado exacerbado de hedonismo e individualismo, afirmam que entre escolher viver eternamente ou nos reproduzir, a grande maioria de nós optaria pela imortalidade. Querer ultrapassar as fronteiras da morte é, para Christopher Lasch, nosso fantasma narcísico como capazes de lidar com os limites da condição humana.

O biocapital, figura maiúscula da economia globalizada, com essas linhas de pesquisa deixa entrever uma nova forma de dominação e de desigualdade. Enquanto anuncia o alongamento sem fim da expectativa de vida das gerações mais velhas a custos exorbitantes, cerceando o espaço essencial da alternância de gerações, reduz a saúde dos jovens estimulando o consumismo que provoca obesidade, diabetes, cânceres e outras doenças sistêmicas geradas pelas contaminações e pela inatividade física.

Quem gostaria de viver nessa sociedade que os arautos do futuro anunciam?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Folha de São Paulo, 08/02/2009

Livro cria dimensão literária ao mito tupi
FRANCISCO BOSCO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Seja dito de saída o essencial: "Meu Destino É Ser Onça", novo livro de Alberto Mussa, é uma grande contribuição aos estudos das culturas indígenas do Brasil, logo, à cultura brasileira e, finalmente, ao patrimônio cultural da humanidade.Sim, pois o propósito deste livro é nada menos que estabelecer um possível texto mítico original, isto é, "restaurar" a narrativa mitológica tupi em um único texto totalizador, a partir da leitura cruzada das diversas fontes nas quais essa narrativa se encontra espalhada e fragmentada.

O autor relata que tal ideia lhe ocorreu depois de ter lido excertos da "Cosmografia Universal" -obra do frade André Thevet, que conviveu com os tupinambás no Brasil em meados do século 16-, "a fonte primária mais extensa de que se dispõe para o conhecimento da mitologia dos nossos antepassados". Mussa vislumbrou aí a possibilidade de "incorporar a epopeia tupinambá a nossa cultura literária".

Para tanto, não bastaria apenas traduzir a obra de Thevet.Seria preciso "devolver à narrativa sua literariedade". Essa estaria no "sentido profundo", no "assunto fundamental" dos fragmentos míticos, que teriam escapado a Thevet e às demais fontes. O autor insiste na dimensão literária de seu desígnio. Alega que, "porque quis fazer literatura", produziu um texto novo, em português, "que corresponde a um possível original tupi, no nível estritamente teórico do seu encadeamento lógico". Aqui é possível sugerir um ajuste de foco.

Adequação
Não é que falte "literariedade" ao texto estabelecido por Mussa. Mas é preciso compreender a adequação dessa palavra a este caso.

O texto mítico "restaurado" não apresenta -nem deveria, dado seu objetivo- uma escrita com procedimentos particularizadores. As características de seu texto são aquelas do gênero mítico: estão lá a parataxe (as sucessivas frases justapostas sem elementos de ligação), o pretérito imperfeito aspectual (a dar a sensação de um tempo contínuo, originário), o pretérito perfeito que se lhe segue (marcando os acontecimentos instauradores), a conjunção "e" no começo de frases que elencam as coisas criadas, a concisão, as imagens etc.

Ou seja, o trabalho extraordinário deste livro não é propriamente literário (ainda que seu resultado o seja), no sentido da realização de uma escrita singular -mas intelectual. O decisivo no estabelecimento da narrativa mitológica é a leitura cruzada que Mussa faz das diversas fontes, operando múltiplos critérios simultaneamente a fim de decidir sobre informações falsas ou verdadeiras, características de personagens, encadeamentos de episódios etc., por meio dos quais torna-se-lhe possível postular o sentido do mito e o recompor.

Literariedade
Dadas algumas voltas no parafuso, reencontramos aqui a questão da literariedade. Deleuze dizia que a composição é um elemento fundamental do estilo. Ora, o estilo, neste livro, situa-se essencialmente aí, em sua estrutura, no jogo de interpretação recíproca que se tece entre suas partes.

O presente livro é uma verdadeira tese, no sentido rigoroso da palavra. Tese que, partindo de um conjunto de hipóteses interpretativas, deságua num original possível -e resplandecente: o mito do mito.

FRANCISCO BOSCO, ensaísta e letrista, é autor de "Folha Explica Dorival Caymmi" (Publifolha)